Wednesday, September 27, 2006






















Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade

Monday, September 11, 2006



















Dá-me um toque de mão
e mostra-me a terrra molhada.
Leva-me descalça pelo caminho
até que a noite seja madrugada.
Dá-me o fruto que colheres da árvore
e molha-me com a água da fonte.
Ensina-me a olhar o céu
e a respirar-te no silêncio.
Leva-me a ouvir as ondas
e faz o meus pés chegarem ao mar.
Deixa-me enrolar no teu colo e
conta-me uma história encantada.
Apaga a luz e vem,
vem comigo...
Dá-me coisas simples
porque estou tão cansada!

Friday, September 08, 2006




















HELP ME MAKE IT THROUGH THE NIGHT

Take the ribbons from my hair shake it loose and let it fall
Laying soft against your skin like the shadows on the wall
Come and lay down by my side till the early morning light
All I'm taking is your time help me make it through the night

I don't care who's right or wrong and I won't try to understand
Let the devil take tomorrow Lord tonight I need a friend
Yesterday is dead and gone and tomorrow's out of sight
And it's sad to be alone help me make it through the night
(Kris Kristofferson)

Thursday, September 07, 2006



Como posso afastar os olhos de ti

Lua cheia de magia?

Ah..como essa luz branca, imensa

Inebria!

Tuesday, August 29, 2006






















Do Mundo

Quem anel a anel há-de por-me a nu os dedos
Quando me arrancarão a camisa,
Quando se verá o torso e braço a braço
Todo o peso
Apoiado á luz ?
Alguém me tocará para que eu estanque.
se tivesse escondido entre objectos
exaltados
uma estrela e o seu combustível.
desfaçam devagar o que me liga
primeiro a cada estado do mundo,
depois à memória.
Desfaçam-me do nome, o grande coágulo
de sangue,
umbigo que habilmente se desamarra.
todas as coisas pequenas que em cercam,
para que servem
elas? Desembaracem-me:
o cântaro cheio da força das dedadas,
o copo coriscando,
garfos e o seu fogo, facas e o seu fogo, a carne
profunda na minha carne pela boca
devoradora,
louça e o seu fogo.
Alguém há-de saber de tanto fôlego junto.
Basta a mão direita para quebrar a água
misteriosamente, a mão
para devolver-me à fonte.
Não é preciso que seja raiada, essa pessoa
Leve e potente, só
que finque no meio da dança um pau em brasa
com a floração: quero que me pare, que me abra.
que use a chave da minha obscuridade.
Antes de me terem chamado com água dentro da pedra,
gosto amargo, unhas
e dentes.
A seda com que teci a malha entre pedaços humanos:
membros criando um espaço, respiradouros,
anéis rudes
nas cabeças, uma
beleza viva.
Alguém há-de tocar-me com um dedo,
alguém
há-de pôr-me um selo.
Herberto Helder

Tuesday, August 01, 2006



















Liberté

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordentJ
'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réuniesJ
'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître

Pour te nommerLiberté.

Paul Éluard

Monday, July 31, 2006




















O Amor!!!! (risos)

Tuesday, July 25, 2006

















Gostava de te mostrar um campo de girassóis
Repletos de luz, ondulantes e amarelos.
Até podiam ser os do Van Gogh,
Loucos pelo dia que chega, sem lei.
Mas não o sei fazer!

Assim permaneceremos,
Até que o encantamento se desvaneça
Suavemente…
Continuarás lutando pelo que conheces
E eu sem saber se te amei!

Sunday, July 23, 2006



Post 100º.

Hoje antes de sair para a praia fui procurar um livro que se me seduzisse lê-lo.
Quantos livros temos que comprados pelo autor que os escreveu, pelo título ou pelas palavras que estão escritas na aba do verso da contracapa continuam olhando para nós na estante sem que as nossas mãos os agarrem mais?
Este que hoje agarrei é um desses casos de amor abandonado: Adeus, minha única, de Antoine Audouard, das edições ASA.
Não lembro de ouvir falar deste escritor mas recordo que quando o comprei, há mais de um ano, retive-me na história de amor de Heloísa e de Abelardo, passada no Séc XII, em Paris.
Encantei-me, no meio do vento, do Sol e do barulho e cheiro do mar!
Marquei a página 22 onde lê a frase dita por uma das personagens: Sê feliz e vai, porque nada perdura. Mas lembra-te sempre de quanto te amei.
Quantas vezes na nossa vida ouvimos ou fomos capazes de dizer (porque dizer deve ser sentir) algo semelhante quando se percebe que o caminho bifurca?
Fiquem bem e obrigada pelas vossas visitas por entre os meus 100 posts!

Friday, July 21, 2006















Dá-me a tua mão: vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe
entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo
e que é a linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia
por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo,
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Miguel Torga

Monday, July 17, 2006

















Depois das águas tortuosas,
Em que me movo no teu olhar,
Revoltando-me em cascatas de água
Que mergulham nas pedras do rio,
Caminho então, serenamente,
Pelas paisagens que conheço e
Surpreendo no peito um suspiro de paz
Que me leva em direcção ao mar.

Monday, July 10, 2006

















LA LUNA ASOMA

Cuando sale la luna
se pierden las campanas
y aparecen las sendas
impenetrables.
Cuando sale la luna,
el mar cubre la tierra
y el corazón se siente
isla en el infinito.
Nadie come naranjas
bajo la luna llena.
Es preciso comer
fruta verde y helada.
Cuando sale la luna
de cien rostros iguales,
la moneda de plata
solloza en el bolsillo.
F. Garcia Lorca

Saturday, July 08, 2006



Porque há imagens que não precisam

de qualquer palavra,

Como alguns olhares!

Tuesday, July 04, 2006

















Relógio da Vida

Monday, July 03, 2006













"Il faut vivre d'amour, d'amitié, de défaites.
Donner à perte d'âme, éclater de passion
Pour que l'on puisse écrire à la fin de la fête:
Quelque chose a changé pendant que nous passions.»
Serge Reggiani

Monday, June 26, 2006






















Caminho II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
Bom dia, companheiro...te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Caminho III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar... encher a alma.
Camilo Pessanha

Sunday, June 25, 2006

Sugiro que desliguem o som do blog (em baixo à direita) para ouvirem a magnifica Alicia Keys



Friday, June 23, 2006




















Nesta forma finita, que é o meu corpo,
encontro a tua sombra na minha lucidez.
Mas, quando passo os dedos pela memória das horas,
trago em cada instante um vinho,
uma embriaguês
e descubro a tua sombra na minha pele.
Então, nesta forma finita, que é o meu corpo,
sinto-te mais uma vez.

Sunday, June 11, 2006





















Os Vinte Poemas
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros, ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a amei, e às vezes ela também me amou.
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela me amou, às vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo.
Ao longe alguém canta.
Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la o meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.
A mesma noite que fez branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.J
á não a amo, é verdade, mas quanto a amei.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame.
É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
a minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, June 06, 2006















No seu corpo é que eu encontro
Depois do amor, o descanso
E essa paz infinita
No seu corpo, minhas mãos
Se deslizam e se firmam
Numa curva mais bonita
No seu corpo o meu momento
É mais perfeito
E eu sinto no seu peito
O meu coração bater
E no meio desse abraço
É que eu me amasso
E me entrego pra você
E continua a viagem
No meio dessa paisagem
Onde tudo me fascina
E me deixo ser levado
Por um caminho encantado
Que a natureza me ensina
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos
Me envolvo e sou tragado
Pelos seus carinhos
E só me encontro se me perco
No seu corpo
Roberto Carlos

Não aprecio o género de música do Roberto Carlos, mas gosto deste poema, sobretudo quando cantado pela Maria Bethânia ou pela Simone