

de mais que tua pele ser pele da minha pele
David Mourão Fereira
Everyone is a moon, and has a dark side which he never shows to anybody... Mark Twain



Jose Angel Buesa
Venho do fundo escuro de uma noite implacável,
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta confesso-me culpável,
e uma pomba branca pousa no meu ombro
Meu coração humilde detém-se na tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo, segue sendo meu amigo.
Ao fim cresceu o roseiral, aquele que não crescia
e agora oferece as suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também mudei muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.
O caso do apito dourado está a tomar proporções de história da carochinha!
Gosto da palavra hoje! Parece dar-me a verdadeira dimensão do tempo: objectivo, acessível e prático. É verdade que ainda me perco no passado, sinto que me prende com as suas correntes mais do que o futuro. Mas o hoje é o que é possível!
Hoje, dei comigo a pensar na maravilha de alguns fenómenos. Como é que com 7 notas musicais se compõe uma infinidade de sons diferentes? Como, com 24 letras, se escreve em português uma imensidão de sentimentos, emoções e pensamentos? E como é que juntando 4 cores apenas (cyan, magenta, amarelo e preto) se pintam todas as cores da natureza?
Não entro nos pormenores dos processos físicos e químicos que explicam uma série de fenómenos, basta ficar por estes para tomar consciência da minha surpresa.
Hoje também constatei que já existem mais de 1000 entradas para este blog. Aos que aqui vêm, sobretudo para os que com os seus comentários, muitos deles tão assíduos quantos os posts que coloco, deixam um estímulo que desconhecem mas que eu sinto, envio o meu obrigada."
HOJE
constatei que em vez de andar para a frente tenho recuado em muitas frentes!
HOJE
estou com a impressão que esvaziei!
(lá no sapo, num blog que não tem posts novos há 2 anos, há tantos visitantes quanto neste em que, quase todas as semanas, copio umas merdas de umas letras animadas por umas merdas de vídeos. Obrigada aos resistentes!)

COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?
PIERROT (avança um passo, com ambas as mãos no peito) – O do meu coração, Columbina!
MEFISTÓFELES (avança também um passo, dobra-se numa leve reverência) – Columbina..., o do meu desejo.
COLUMBINA – Sois perseverantes, vejo-me reduzida a ouvir-vos. Já é um triunfo vosso. Ainda bem que sois dois, um neutralizará o outro. (Puxa de uma cadeira, senta-se a meio da cena, voltada para o público.) Vem cá Pierrot! (Pierrot, de salto, vem cair a seus pés) Vem também, Mefistófeles! (Mesfistófeles adianta-se com aprumo e graça, pára a seu lado, espera.) E agora divirtam-me! conquistem-me! façam-me esquecer que me obrigam a ouvi-los.
PIERROT e MEFISTÓFELES (a um tempo) – Quando aqui entrei Columbina... (Calam-se ambos, entreolham-se; cada um espera que o outro prossiga. Silêncio breve.)
COLUMBINA – Não comecem por falar ambos a um tempo! e não principiem assim. Que vão dizer-me? O comum: «Quando aqui entrei, Columbina, não supunha vir encontrar...» Ou então: «Quando entrei, Columbina, já trazia a certeza de vir encontrar...» Pelo amor de Deus! lembrem-se que sou uma rapariga mais ou menos moderna.
PIERROT – Eu não ia dizer isso, Columbina.
COLUMBINA – Apostamos que sim?
MEFISTÓFELES – Veio-te à cabeça que o dissesse eu?
PIERROT – Bem, Columbina: é verdade! Eu ia dizer: «Quando aqui entrei, Columbina, já sabia que me aconteceriam grandes coisas...»
COLUMBINA – Aconteceram, Pierrot?
PIERROT – Encontrei-te, minha Columbina.
COLUMBINA – Vês? Caíste na cilada.
PIERROT – Também a não evitei, Columbina.
COLUMBINA – Mas porquê? Por que disseste exactamente o que eu queria... isto é: o que eu receava que dissesses? Não sabes nada menos repetido?
PIERROT – As palavras mais repetidas podem tornar-se novas. Toda a gente as diz, quase ninguém as sente.
COLUMBINA – Ninguém! Só tu.
PIERROT – Sou poeta, Columbina. Descubro a virgindade das coisas gastas.
COLUMBINA (para Mefistófeles) – Socorre o teu amigo, Mefistófeles! Pierrot está em grande perigo.
PIERROT – Em grandes perigos. A qual te referes?
MEFISTÓFELES – Não sou amigo de Pierrot. Não o conheço.
PIERROT (imediatamente) – Não sou amigo de Mefistófeles; nem pretendo conhecê-lo.
MEFISTÓFELES – Só perdes. Tenho algum interesse.
PIERROT – Talvez também tu percas. E a falar verdade, não me parece que tenhas grande interesse.
MEFISTÓFELES – Estás a ser pouco amável, Pierrot. Não é uso, cá na roda, tratar-se um rival com essa falta de cortesia.
PIERROT – Quem te diz que pretendo aprender os costumes da tua roda?
MEFISTÓFELES – Sou mais gentil do que tu: Não quero crer que os ignores. (?)
COLUMBINA – Mas tem graça!: estamos aqui os três sem nos conhecermos. Tanto melhor... assim nos podemos interessar uns pelos outros. Que interesse podem ter as pessoas conhecidas?
in, as Três Máscaras de José Régio