Everyone is a moon, and has a dark side which he never shows to anybody... Mark Twain
Sunday, November 05, 2006
a Conchita García Lorca
La luna vino a la fragua
con su polisón de nardos.
El niño la mira mira.
El niño la está mirando.
En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, úbrica y pura,
sus senos de duro estaño.
Huye luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían con tu corazón
collares y anillos blancos.
Niño déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
con los ojillos cerrados.
Huye luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
Niño déjame, no pises,
mi blancor almidonado.
El jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro de la fragua el niño,
tiene los ojos cerrados.
Por el olivar venían,
bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
y los ojos entornados.
¡Cómo canta la zumaya,
ay como canta en el árbol!
Por el cielo va la luna
con el niño de la mano.
Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
el aire la está velando.
Federico García Lorca, 1928
Sunday, October 29, 2006
Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P´la porta da frente
E fica a porta escancarada
Vou-te dizer
A luz começou em frestas
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares
Dirás sempre palavras destas
P´ra te ter
P´ra que de mim não te zangues
Eu vou-te dar
A pele, o meu cetim
Coração carmesim
As carnes e com elas sangues
Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo
E o dia tão diário disso tudo
E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino
Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P´ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços
Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo
E o dia tão diário disso tudo
Mas se tudo tem fim
Porquê dar a um amor guarida
Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço
Da morte volta sempre em vida
Às vezes o amor
No calendário, noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo
E o dia tão diário disso tudo
Da morte volta sempre em vida
Sérgio Godinho, Ligação directa
Sunday, October 22, 2006
Friday, October 20, 2006
gosto de olhar as crias
e de perder-me de amor por elas
gosto do azul da terra
e de fogo na lareira
gosto de fruta com sumo
e da chuva nas janelas
gosto do cheiro de terra molhada
e da pele morena de verão
gosto do livro aberto
e do amor de fogueira
gosto do cheiro da terra
e de histórias de fadas
gosto da força do mar
e das ondas no paredão
gosto da imensidão do azul
e da lua feiticeira
gosto do riso aberto
e de piscar-te o olho
gosto do vinho no copo
e dos pés em cima da cadeira
gosto de flores na terra
e das estrelas no céu
gosto da flanela no Inverno
e de pé descalço no verão
gosto de morder-te os lábios
e de beber a água na fonte
gosto do riso aberto
e da paz do silêncio
gosto do preto e do branco
e no colo, o meu cão
gosto de tacão alto
e do perfume da alfazema
gosto da tua pele
e das tuas maos longas
gosto de olhar os rostos
e de quem aceita os seus medos
gosto de moinhos de água
e dos ventos de monção
gosto da musica da noite
e das luzes da cidade
gosto do rei de copas
e de heroinas de espadachim
gosto do vinho morno
e da cor da paixão
gosto de café amargo
e dos teus beijos doces
gosto de dormir na areia
e de enrolar-me a ti
ainda não sabes nada de mim?!
Tuesday, October 17, 2006

A Lua (dizem os ingleses),
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.
Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.
Fernando Pessoa
Saturday, October 14, 2006

Quantas noites frias
a tua ausência me despiu
e gelou
sem poder tocar-te
na pele macia
que me vestiu
desde que nasci.
São, ainda, as tuas mãos
que agarro
quando o chão que piso
é feito de água
Não choro,
não morri
não estremeço
e não me amarro
mas fecho os olhos
e vejo-te
porque hoje voltaste
a estar aqui
minha mãe, meu amor,
minha mágoa.
Saturday, October 07, 2006
Thursday, October 05, 2006

Para ti
Para ti que vais comigo agora,
neste pedaço de caminho,
abro minhas mão,
minhas lágrimas e os meus risos
e me atormento no corpo
para descansar no teu carinho
Para ti que vais comigo agora,
neste pedaço de tempo ,
trouxe duas estrelas de onde vim.
Guarda-as junto à tua noite
porque, quando chegar o momento,
uma te pedirei para mim.
Sunday, October 01, 2006

valsa dos amantes
há um sorriso pequeno
nos labios que amei
faz tempo que te não via
e ao ver-te pensei
estás mudada,
estou mudado
e dos jovens que um dia
se amaram nasceu este fado
há um sorriso pequeno
no homem que eu sou
iniciamos o amor
quando o amor nos chegou
não me esqueço,
não te equeças que
inocentes, escondidos,
escondemos o amor feito às pressas
não penses que te vejo
como outrora,
a vida esgota a vida
hora a hora
o tempo gasta o tempo
e marca a gente
o espelho mostra
como eu estou diferente,
não estou novo
não sou novo
mas não peças que a vida
te apague do fundo de mim
Jorge Fernando
Wednesday, September 27, 2006

Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
Monday, September 11, 2006

Dá-me um toque de mão
e mostra-me a terrra molhada.
Leva-me descalça pelo caminho
até que a noite seja madrugada.
Dá-me o fruto que colheres da árvore
e molha-me com a água da fonte.
Friday, September 08, 2006

HELP ME MAKE IT THROUGH THE NIGHT
Take the ribbons from my hair shake it loose and let it fall
Laying soft against your skin like the shadows on the wall
Come and lay down by my side till the early morning light
All I'm taking is your time help me make it through the night
I don't care who's right or wrong and I won't try to understand
Let the devil take tomorrow Lord tonight I need a friend
Yesterday is dead and gone and tomorrow's out of sight
And it's sad to be alone help me make it through the night
(Kris Kristofferson)
Tuesday, August 29, 2006

Do Mundo
Quem anel a anel há-de por-me a nu os dedos
Quando me arrancarão a camisa,
Quando se verá o torso e braço a braço
Todo o peso
Apoiado á luz ?
Alguém me tocará para que eu estanque.
se tivesse escondido entre objectos
exaltados
uma estrela e o seu combustível.
desfaçam devagar o que me liga
primeiro a cada estado do mundo,
depois à memória.
Desfaçam-me do nome, o grande coágulo
de sangue,
umbigo que habilmente se desamarra.
todas as coisas pequenas que em cercam,
para que servem
elas? Desembaracem-me:
o cântaro cheio da força das dedadas,
o copo coriscando,
garfos e o seu fogo, facas e o seu fogo, a carne
profunda na minha carne pela boca
devoradora,
louça e o seu fogo.
Alguém há-de saber de tanto fôlego junto.
Basta a mão direita para quebrar a água
misteriosamente, a mão
para devolver-me à fonte.
Não é preciso que seja raiada, essa pessoa
Leve e potente, só
que finque no meio da dança um pau em brasa
com a floração: quero que me pare, que me abra.
que use a chave da minha obscuridade.
Antes de me terem chamado com água dentro da pedra,
gosto amargo, unhas
e dentes.
A seda com que teci a malha entre pedaços humanos:
membros criando um espaço, respiradouros,
anéis rudes
nas cabeças, uma
beleza viva.
Alguém há-de tocar-me com um dedo,
alguém
há-de pôr-me um selo.
Herberto Helder
Tuesday, August 01, 2006

Liberté
Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom
Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom
Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom
Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom
Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom
Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom
Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom
Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom
Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom
Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom
Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordentJ
'écris ton nom
Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réuniesJ
'écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom
Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom
Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom
Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom
Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom
Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom
Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommerLiberté.
Paul Éluard
Monday, July 31, 2006
Tuesday, July 25, 2006
Sunday, July 23, 2006

Post 100º.
Hoje antes de sair para a praia fui procurar um livro que se me seduzisse lê-lo.
Quantos livros temos que comprados pelo autor que os escreveu, pelo título ou pelas palavras que estão escritas na aba do verso da contracapa continuam olhando para nós na estante sem que as nossas mãos os agarrem mais?
Este que hoje agarrei é um desses casos de amor abandonado: Adeus, minha única, de Antoine Audouard, das edições ASA.
Não lembro de ouvir falar deste escritor mas recordo que quando o comprei, há mais de um ano, retive-me na história de amor de Heloísa e de Abelardo, passada no Séc XII, em Paris.
Encantei-me, no meio do vento, do Sol e do barulho e cheiro do mar!
Marquei a página 22 onde lê a frase dita por uma das personagens: Sê feliz e vai, porque nada perdura. Mas lembra-te sempre de quanto te amei.
Quantas vezes na nossa vida ouvimos ou fomos capazes de dizer (porque dizer deve ser sentir) algo semelhante quando se percebe que o caminho bifurca?
Fiquem bem e obrigada pelas vossas visitas por entre os meus 100 posts!
Friday, July 21, 2006

Dá-me a tua mão: vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe
entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo
e que é a linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia
por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo,
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Miguel Torga


