Tuesday, July 17, 2007


Não é que goste de olhar para o passado nem imaginar o futuro, mas nesta noite de insónia fui espreitar o meu moribundo blog do sapo ( e não digo morto porque não tenho coragem de o enterrar) e constatei que afinal estou completamente embrutecida.
Bem me dizia um amigo para eu recuperar alguns textos aqui para o blogspot. E eu de tão embrutecida que estou até me sinto orgulhosa só de copiar o que fiz há dois anos atrás (tomar consciência do estado de letargia servirá para acordar?!).
Em 31 de Outubro de 2005 escrevia:
Impressões

Gosto da palavra hoje! Parece dar-me a verdadeira dimensão do tempo: objectivo, acessível e prático. É verdade que ainda me perco no passado, sinto que me prende com as suas correntes mais do que o futuro. Mas o hoje é o que é possível!


Hoje, dei comigo a pensar na maravilha de alguns fenómenos. Como é que com 7 notas musicais se compõe uma infinidade de sons diferentes? Como, com 24 letras, se escreve em português uma imensidão de sentimentos, emoções e pensamentos? E como é que juntando 4 cores apenas (cyan, magenta, amarelo e preto) se pintam todas as cores da natureza?


Não entro nos pormenores dos processos físicos e químicos que explicam uma série de fenómenos, basta ficar por estes para tomar consciência da minha surpresa.


Hoje também constatei que já existem mais de 1000 entradas para este blog. Aos que aqui vêm, sobretudo para os que com os seus comentários, muitos deles tão assíduos quantos os posts que coloco, deixam um estímulo que desconhecem mas que eu sinto, envio o meu obrigada."


HOJE

constatei que em vez de andar para a frente tenho recuado em muitas frentes!

HOJE

estou com a impressão que esvaziei!


(lá no sapo, num blog que não tem posts novos há 2 anos, há tantos visitantes quanto neste em que, quase todas as semanas, copio umas merdas de umas letras animadas por umas merdas de vídeos. Obrigada aos resistentes!)









Monday, July 09, 2007

Encosta-te a mim
Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.



eu queria-te bem...

Wednesday, July 04, 2007

Shine on you crazy diamond

Saturday, June 30, 2007



Num emaranhado, suportado em fios de seda,
pouco visível mas forte
descubro as minhas mãos,agarrando o nada.
E mesmo que os olhos, de lágrimas encharcados,
guiem os passos num caminho enganado,
esta seda, purpúra e doce, prende-me a vontade
e sufoca-me na minha própria sorte.

Saturday, June 23, 2007



Para ti, Violeta, com a mágoa de ter sido tão curta a tua passagem por cá!

Sunday, June 17, 2007



Acredito que a loucura seja visita assídua deste espaço!

Thursday, June 14, 2007



COLUMBINA – Estou então entre dois fogos?

PIERROT (avança um passo, com ambas as mãos no peito) – O do meu coração, Columbina!

MEFISTÓFELES (avança também um passo, dobra-se numa leve reverência) – Columbina..., o do meu desejo.

COLUMBINA – Sois perseverantes, vejo-me reduzida a ouvir-vos. Já é um triunfo vosso. Ainda bem que sois dois, um neutralizará o outro. (Puxa de uma cadeira, senta-se a meio da cena, voltada para o público.) Vem cá Pierrot! (Pierrot, de salto, vem cair a seus pés) Vem também, Mefistófeles! (Mesfistófeles adianta-se com aprumo e graça, pára a seu lado, espera.) E agora divirtam-me! conquistem-me! façam-me esquecer que me obrigam a ouvi-los.

PIERROT e MEFISTÓFELES (a um tempo) – Quando aqui entrei Columbina... (Calam-se ambos, entreolham-se; cada um espera que o outro prossiga. Silêncio breve.)

COLUMBINA – Não comecem por falar ambos a um tempo! e não principiem assim. Que vão dizer-me? O comum: «Quando aqui entrei, Columbina, não supunha vir encontrar...» Ou então: «Quando entrei, Columbina, já trazia a certeza de vir encontrar...» Pelo amor de Deus! lembrem-se que sou uma rapariga mais ou menos moderna.

PIERROT – Eu não ia dizer isso, Columbina.

COLUMBINA – Apostamos que sim?

MEFISTÓFELES – Veio-te à cabeça que o dissesse eu?

PIERROT – Bem, Columbina: é verdade! Eu ia dizer: «Quando aqui entrei, Columbina, já sabia que me aconteceriam grandes coisas...»

COLUMBINA – Aconteceram, Pierrot?

PIERROT – Encontrei-te, minha Columbina.

COLUMBINA – Vês? Caíste na cilada.

PIERROT – Também a não evitei, Columbina.

COLUMBINA – Mas porquê? Por que disseste exactamente o que eu queria... isto é: o que eu receava que dissesses? Não sabes nada menos repetido?

PIERROT – As palavras mais repetidas podem tornar-se novas. Toda a gente as diz, quase ninguém as sente.

COLUMBINA – Ninguém! Só tu.

PIERROT – Sou poeta, Columbina. Descubro a virgindade das coisas gastas.

COLUMBINA (para Mefistófeles) – Socorre o teu amigo, Mefistófeles! Pierrot está em grande perigo.

PIERROT – Em grandes perigos. A qual te referes?

MEFISTÓFELES – Não sou amigo de Pierrot. Não o conheço.

PIERROT (imediatamente) – Não sou amigo de Mefistófeles; nem pretendo conhecê-lo.

MEFISTÓFELES – Só perdes. Tenho algum interesse.

PIERROT – Talvez também tu percas. E a falar verdade, não me parece que tenhas grande interesse.

MEFISTÓFELES – Estás a ser pouco amável, Pierrot. Não é uso, cá na roda, tratar-se um rival com essa falta de cortesia.

PIERROT – Quem te diz que pretendo aprender os costumes da tua roda?

MEFISTÓFELES – Sou mais gentil do que tu: Não quero crer que os ignores. (?)

COLUMBINA – Mas tem graça!: estamos aqui os três sem nos conhecermos. Tanto melhor... assim nos podemos interessar uns pelos outros. Que interesse podem ter as pessoas conhecidas?

in, as Três Máscaras de José Régio

Tuesday, June 12, 2007

Oh Fernando de Bulhões!
Perdemos o vinho tinto para a caipirinha, perdemos o fado para o samba.
Se tenho que dividir o meu santo com outro país que seja com a Itália, é mais justo!
E depois, eu gosto dos italianos. Sabem olhar, têm aquele jeito do sangue quente que adorna os gestos, e não só...
Eu troco as brasileiras e os portugues que destilam baba sobre elas por uns santinhos italianos.
Oh Fernando, oh Santo das coisas perdidas encontra-me o bacalhau com grão porque já não aguento pedir maminha (isso para uma mulher é díficil) nos restaurantes.
Se o Fernando quisesse a Daniela Mercury na festa dele tinha ido morrer à Bahia, não acham?

Saturday, June 09, 2007

Me and Mrs.Jones
We got a thing goin'on
We both know that it's wrong
But it's much too strong
To let it go now
We meet every day at the same cafe
Six-thirty and no one knows she'll be there
Holding hands, making all kinds of plans
While the juke box plays our favorite songs

Me and Mrs.Jones
We got a thing goin'on
We both know that it's wrong
But it's much too strong
To let it go now

We gotta be extra careful
That do we don't build our hopes up too high
Because she's got her own obligations
And so, and so, do I

Me and Mrs.Jones
We got a thing goin'on
We both know that it's wrong
But it's much too strong
To let it go now
Well, it's time for us to be leaving
It hurts so much, it hurts so much inside
Now she'll go her way snd I'll go mine

Tomorrow we'll meet
The same place, the same time
Me and Mrs.Jones

We got a thing goin'on
We both know that it's wrong
But it's much too strong
To let it go now

Saturday, May 19, 2007

Tuesday, May 15, 2007

Close to you


Why do birds
Suddenly appear?
Everytime you are near
Just like me
They long to be
Close to you


Why do stars
Fall down from the sky?
Everytime you walk by
Just like me
They long to be
Close to you

on the day that you were born
The angels got together and decided
To create a dream come true
So they sprinkled moondust in your hair
Of gold and starlight in your eyes of blue

that is why all the girls in town
Follow you all around
Just like me
They long to be
Close to you

Just like me
They long to be
Close to you



Saturday, May 12, 2007

O Cheiro da Alfazema

Sentado debaixo da bela olaia, repleta de flores roxas, observava os campos verdes que se espraiavam em frente do seu olhar cansado. Os olhos, que antes eram de um castanho vivo e intenso tinham agora uma auréola azulada em redor da pupila.
Era um homem alto, ainda forte, mas as costas estavam já curvando-se ao peso dos anos. A bengala já era quase a sua melhor amiga para o trazer ao mundo que existia fora das quatro paredes do seu monte.
Naquele final de um dia de Primavera o Sol ainda brilhava quente.
Amanhã vai estar outro dia de calor, pensou quando percebeu o céu azul mesclado de laranja.
Os dias de Inverno eram penosos porque o obrigavam a manter-se em casa, que ele partilhava com um rafeiro descendente de perdigueiro. Três sobrinhos, os parentes mais próximos, moravam a quase 10 quilometros de distância. Maior distância, nem quantificável, era a dos afectos que nutriam mutuamente.
Tinham conseguido um acordo com a Misericórdia local e as suas consciências tinham ficado serenas quando conseguiram que uma mulher fosse prestar dia sim, dia não a assistência ao tio. Fazia-lhe uma limpeza apressada à casa, tratava-lhe da roupa, preparava-lhe as refeições do dia e deixava alinhavadas as outras.
Ainda não tinha grandes problemas de saúde e para além dos remédios para a pressão arterial elevada e para as artroses que lhe atacavam sobretudo os joelhos, este homem não precisava de outros cuidados.
Recebia, de vez em quando, a visita do compadre, pai do afilhado que não via há mais 20 anos porque tinha emigrado para a Austrália. O homem vinha com mais boa vontade ajuda-lo a passar as horas do que ele a recebê-lo. O sacrifício das palavras forçadas era maior do que o da ausência de gente.
Frequentemente se lembrava da frase de uma mulher que lhe tinha passado pelas mãos, tocado ao de leve no coração mas nunca lhe alcançado a alma: gosto de estar sozinha porque consigo viver bem comigo.
Também ele, resolvidas as dúvidas sobre o objectivo da sua existência e das procuras nunca alcançadas, aprendeu a gostar de estar consigo.
Continuava de olhar fechado, sentindo a brisa que lhe trazia o cheiro da alfazema. Os barulhos da natureza assumiam uma densidade que invadia o corpo e lhe provocava um relaxamento imenso.
Sentiu um leve toque no ombro. O seu corpo estremeceu, não tanto pelo medo que não teve sequer tempo de se instalar mas pela surpresa da presença.
Abriu os olhos e viu uma mulher com uma criança pela mão.
A face pareceu-lhe familiar. Os cabelos castanhos, pelos ombros, enquadravam uma face comprida onde um olhar castanho esverdeado lhe sorria discretamente.
Bom dia, ouviu num espanhol aportuguesado, e sem que o deixasse sequer responder ao cumprimento acrescentou apressada:
Lamento o incómodo mas seria possível dar-me um copo com água para o meu filho? Andamos em passeio, não trouxe nada e ele queixou-se com sede. Como vi esta casa. Desculpe-me o atrevimento!
O homem assentou ligeiramente com a cabeça e fez o movimento de se levantar. Os passos longos e lentos encaminharam-no para a porta e antes de entrar olhou para trás e sugeriu que ela entrasse.
Obrigada, mas podemos esperar aqui, sorriu a mulher.
Até a voz lhe era familiar. Um timbre suave mas imperativo.
A memória, traiçoeira, trouxe-lhe a espanhola por quem um dia, há muitas luas atrás, se perdeu de amores.
Cruzou-se com ela em Rosal de la Frontera porque fazia parte de um grupo de espanholas conhecidas de um camarada de tropa. Quando a olhou sentiu uma imensa vontade em ficar com ela. E ficou!
Entre brigas de posse e momentos de serenidade organizaram os trapos e a vida.
Não casaram mas ela instalou-se na sua casa, na sua cama e no seu coração.
Briguenta e salerosa, animava-lhe os dias com conversas expontâneas e afectividades assumidas.
Achava-lhe graça, nunca lho disse mas ela sabia-o.
Um dia, correu para ele com uma carta na mão.
Vou a Sevilha, o meu primo que emigrou para França vem de férias à Andaluzia e eu quero visita-lo, disse ela alegre e saltitante.
Ainda se lembra de ter ficado paralisado sem saber o que responder.
Ainda se lembra de ter ficado espantado por ela ter decidido ir sem o consultar.
Ainda se lembra de ter registado o facto dela não fazer alusão à sua companhia.
Deixou-a partir sem lhe fazer notar a mágoa e os dias seguintes foram arrumados entre indecisões e certezas.
Recebeu uma carta que hesitou em abrir mas contrariado com a sua fraqueza acabou por saber que a espanhola tinha chegado bem, que o calor a tinha feito desmaiar na Plaza Mayor e que o bendito do primo tinha alugado uma casa com jardim interior e janelas engalanadas de ferro forjado ainda do tempo da guerra civil. Tudo muito bonito e até a madresita iria juntar-se à família para comemorar.
Carinõ, te amo! acabou ela a missiva.
Ele encolheu os ombros quando se findou o texto.
Um dia, a decisão acordou com ele e sentado no beiral da casa, traçou uma cruz no chão de terra batida. Depois, arrumou duas malas com os seus pertences mais pessoais, fechou as janelas e as portas, carregou a cruz às costas e partiu para Norte.
Soube que ela o procurou. Soube que ela não soube onde ele estava e soube que ela partiu surpresa e triste. Deixou de saber dela porque a tal se obrigou mas nunca conseguiu afastar a silenciosa presença da sua memória mais profunda.
Nós vivemos em Malaga, sou casada com um português que me tem mostrado o vosso país, explicou a jovem mulher enquanto esperava pela água.
O homem rodou sobre o tronco e estendeu-lhe o copo com a água.
Obrigada, sorriu agradecida, até um dia!
Deu dois passos e ainda se voltou para exclamar:
A minha mãe tinha um carinho muito grande por esta terra. Dizia-me que aqui a cheiro da alfazema decora os nossos sentidos nos finais de dia de Primavera!
O homem sorriu, o olhar brilhou e levantou a mão para dizer um adeus.
Depois voltou-se no sentido contrário e quando os olhos poisaram de novo sobre a natureza sentiu que os campos verdes com cheiro de alfazema também podem ser desertos imensamente áridos.
Com as costas da mão afastou duas lágrimas que teimavam em marcar-lhe a cara.

Monday, May 07, 2007


"Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra."
Rainer Maria Rilke

Thursday, May 03, 2007

Cada lugar teu



Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu
tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
tento esquecer a mágoa
guardar só o que é bom de guardar

Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar

Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve pra longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só

Eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar
Mafalda Veiga

Tuesday, April 24, 2007



Cavalo à solta
Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos

Porque é Abril!
Porque a primavera da liberdade também foi feita pelas letras deste homem!

Sunday, April 15, 2007




Hoje não tenho sono!
Na semana passada aconteceu haver algumas noites em que também nao tive sono quando as horas já eram altas. Já na outra semana anterior assim foi!
Quando viajo fico assim!
A ansia de partir não me deixa sossegar os sentidos.
Como não vou fazer nenhuma viagem, daquelas, fisicas...de comboio, de avião ...
Será que sabes do que vou fugir?
Pois...

Friday, April 13, 2007

Sete pedaços de vento

Entrego ao vento os meus ais
Onde desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata

Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde
Na vontade de ser tua

Quero ser
Eu sou assim

Sete pedaços de vento
Sete vozes no jardim
No jardim que eu própria invento

Sete ares de nostalgia
Sete perfumes diversos
Nos cristais da fantasia
Amante de amores dispersos

Sete gritos por gritar
Sete silêncios viver

Sete luas por brilhar
E um céu para me acontecer

Entrego ao vento os meus ais
Onde desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata

Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
cantado por Cristina Branco

Thursday, April 05, 2007

Música para os meus ouvidos




What a difference a day made,
twenty four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain
My yesterday was blue
Today I'm a part of you
My lonely nights are through
Since you said you were mine
Oh, what a difference a day made
There's a rainbow before me
Skies above can't be stormy
Since that moment of bliss
That thrilling kiss
It's heaven when you find romance on the menu
What a difference a day made
And the difference was you.

Saturday, March 31, 2007



As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade

Monday, March 26, 2007

IF YOU NEED ME
(Bateman/Pickett)

If you need me
Why don't you call me
Said if you need me
Why don't you call me
Don't wait too long
When things go wrong
I'll be there, yeah
Where I belong

Said if you want me
Why don't you send for me
Said if you want, want, want
All you gotta do is send for me
Don't wait to long
Just a pick up your phone
I'll be there
Right there, where I belong

People always told me, darling
That you didn't mean me no good
But I know deep down in my heart
I done the best I could
And one of these days, darling
It won't be long
You're gonna come walking through that door
And I know in my mind these are the very
Words you're gonna say to me

I still love you
Always thinking of you
I still love, love, love
Always thinking of you
Don't wait too long
When things go wrong
I'll be there, right there
Where I belong


ah..já clicaram no alho francês?!
e agora não se esqueçam que, hoje dia Mundial do Teatro...
"Todos somos chamados, pelo menos uma vez na vida, a desempenhar um papel que nos supera. É nesse momento que justificamos o resto da vida, perdida no desempenho de pequenos papéis indignos do que somos"...
Felizmente há luar! Luis S. Monteiro

Thursday, March 08, 2007




O dia, cheio de horas de luz, levou-lhe os passos para junto do mar. Era final da tarde mas o Sol ainda brilhava quente quando iniciou a caminhada sem destino. Não queria pensar em nada de importante, só queria andar para gastar as energias acumuladas em horas horas de cansaço.
Não conseguia parar mesmo que o corpo assim pedisse e lembrou-se da letra de uma canção do Variações: sou estou bem onde não estou!
Aquele local fez com que as memórias, escondidas há tantos anos, chegassem à flor da pele! Lembrou-se de um copo numa mão de um homem encostado a um balcão.
Foi isso mesmo! - recordou quando semicerrou o olhar para que a lembrança fosse mais real. Foi o copo quieto, com uma bebida quieta, preso num corpo quieto encostado a um balcão de bar, numa noite qualquer de verão.
Tanta gente que ali estava e o olhar resolveu descansar ali.
E depois?! Depois, o caminho mudou, tal como muda o trajecto de dezenas de pessoas quando o agulheiro faz o movimento mágico de mexer nos carris para orientar o comboio.
Que momento estranho aquele! - pensou agora, quando os passos pararam no mesmo local.
Olhou o balcão mas não o viu o copo, nem a mão, nem o homem mas sentiu-lhe o cheiro e o sabor da boca. O mar era o azul de um olhar perdido.
Suspirou, sentiu, tremeu e colocou os óculos escuros: o Sol fazia reflexo nas águas dos olhos!

Wednesday, February 28, 2007

O diálogo do eu ou o monólogo a dois

Devagarinho, o tempo foi aprisionando as vontades.

Hoje quando paro o olhar no horizonte questiono-me porque nos estamos esgotando.

Sabes que, quando gostamos de uma música, ouvimo-la incessantemente durante muitos minutos em quase todas as horas. Um dia, numa semana qualquer, percebemos que já não procuramos aquele CD para escolher aquela faixa.

Achas que estou a ser cruel, comparando o amor a uma canção?

Olha, estou vendo aquela mulher de olhos brilhantes, dizendo-me que há melodias eternas. Vou-lhe perguntar quantas vezes ela sente saudades de as ouvir. Ela não me soube responder!

Não olhes para baixo, não desvies o olhar da dúvida!

Porque me procuras tanto para esgotares a vontade de queres estar?

Wednesday, February 21, 2007

Clair de Lune


Debussy


Monday, February 12, 2007


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!...

Florbela Espanca

Saturday, February 10, 2007



Hide in your shell cos the world is out to bleed you for a ride
What will you gain making your life a little longer?
Heaven or hell, was the journey cold that gave your eyes of steel?
Shelter behind painting your mind and playing joker

Too frightening to listen to a stranger
Too beautiful to put your pride in danger
Youre waiting for someone to understand you
But youve got demons in your closet
And youre screaming out to stop it
Saying lifes begun to cheat you
Friends are out to beat you
Grab on to what you scramble for

Dont let the tears linger on inside now
Cos its sure time you gained control
If I can help you, if I can help you
If I can help you, just let me know
Well, let me show you the nearest signpost
To get your heartback and on the road
If I can help you, if I can help you
If I can help you, just let me know.

All through the night as you like awake and hold yourself so tight
What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?
I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love
How would it be if you could see the world through my eyes?

Too frightening- the fires getting colder
Too beautiful- to think youre getting older
Youre looking for someone to give an answer.
But what you see is just an illusion
Youre surrounded by confusion
Saying lifes begun to cheat you
Friends are out to beat you
Grab on to what you can scramble for
Dont let teh tears...
... just let me know
I wanna know...
I wanna know you...
Well let me know you
I wanna feel you
I wanna touch you
Please let me near you
Can you hear what Im saying?
Well Im hoping, Im dreamin, Im prayin
I know what youre thinkin
See what youre seein
Never ever let yourself go

Hold yourself down, hold yourself down
Why dya hold yourself down?
Why dont you listen, you can
Trust me,
Theres a place I know the way to
A place there is need to feel you
Feel that youre alone
Hear me
I know exactly what youre feelin
Cos all your troubles are whithin you
Please begin to see that Im just bleeding to
Love me, love you
Loving is the way to
Help me, help you
- why must we be so cool, oh so cool,?
Oh, were such damn fools...

Sunday, January 21, 2007

E SE A ALMA TE REPROVA



Faz meu nome teu amor e amor
E amas-me então pois eu te chamo Ardor.
Se a alma te reprova e eu venha perto,
Jura à cega, que o teu amor eu fosse,
Ardor tem, como saber, sitio certo,
E assim me enchas, amor, medida doce.
Ardor enche de ardor e amor, teu cofre,
Ai, lardeia-o de ardor, e ardor a pronto
E bem prova que em vazadouro sofre:
Se o numero é grande, eu só não conto.
Faça o meu nome, teu amor e amor
Então que eu passe em grupo sem ser visto,
Sendo um nas contas dessa feitoria
Tem-me em nada, se te agradar registo:
De que este nada em ti é doçaria.
Faz meu nome teu amor e amor
E amas-me então pois eu te chamo Ardor.

Saturday, January 06, 2007

Caminho

Vou atravessando este caminho

feito de tempestades e de bonanças

com verdes e pretos,

manchado de cansaços e de esperanças.

Vou atravessando este caminho

que alguém pincelou

de gentes e de momentos,

que tatuam a minha memórias

e vou continuar a atravessar este caminho,

com o sangue dos meus medos

e a força da minha calma,

sem glórias.

Que haja sempre luz,

para que lute pelo que merece

e discernimento para abandonar

o me destrói a alma.



(aos meus filhos que transformam o meu caminho em primaveras cintilantes que iluminam o meu olhar)

Tuesday, December 12, 2006

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz lá dentro,
apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade

Sunday, December 10, 2006

Blue Blue Sky
I only know what I can see
So I imagine what could be
Where the horizon cuts the air
Look for me out there

Someday I'll touch the blue blue sky
Someday I'll touch the blue blue sky

If I could kiss the Earth goodbye
And cruse the never ending sky
Where the horizon cuts the air
Wait for me down there

Someday I'll touch the blue blue sky
Someday I'll touch the blue blue sky

Alan Parsons Project



Friday, December 08, 2006

A máquina de secar as mãos

Já lhe tinham dito que andava triste. Os sorrisos aconteciam mas tinham a névoa dos olhos a acompanhá-los e assim pareciam dias de inverno: cinzentos e frios.

Naquela manhã, como nas anteriores, assolou uma tristeza mal o acordar lhe fixou o olhar no tecto. Enroscou-se debaixo do edredon quente e sentiu vontade de continuar ali, protegida do frio e do resto.

Contrariou-se e partiu para mais um dia cheio de rotinas inesperadas. Bica tomada à pressa, fazendo companhia a um sonho, ao balcão do café com nome de cidade italiana. Desde Novembro que todos os dias comia um sonho de manhã como se ao mastigar a suave massa frita conseguisse dirigir todas as outras suas vontades.

Não gostava de fazer planos, aprendeu a viver o dia à dia, sem esperar nada de especial da vida nem das pessoas. Escondia-se na piada das pequenas coisas, fingido surpreender-se e aprendeu a caminhar e a falar suavemente, dando-lhe um ar de distanciamento e de resistência.

O carro lá pegou, o rádio lá tocou, o isqueiro lá se perdeu e ela lá foi para um quarto andar de um prédio da 'city' onde um grande gabinete e um grande monte de papeis e de responsabilidades a esperavam.

Hoje que tinha querido ir tratar de arranjar quem lhe podasse as árvores, que queria ter ido acender a lareira e brincar com os cães. Hoje que lhe apetecia enrolar-se na cama com alguém, que lhe apetecia fugir mais cedo para perto do mar, não a deixavam. A agenda andava atrás dela nas mãos da secretária: é às s 11 horas ali..às 15 acolá, mas ainda tem que passar cá..no final do dia. Que merda, pensou!

Almoçou à pressa e não gostou do que ouviu. As lágrimas ainda assolaram na garganta mas foram engolidas com o pato e com o arroz. Molhou-se porque não usa chapéu de chuva, aturou 10 pessoas as masturbarem-se a uma mesa de reuniões e voltou a molhar-se a caminho da Mexicana.

Era o final de um dia extenuante mas ainda conseguiu questionar-se porque os bolos estavam num balcão e a máquina de café no balcão em frente. Sem fome, pediu uma miniatura só para observar os movimentos do empregado de mesa.

Olhou para o ambiente, achou tudo feio, incluindo a horrorosa da empregada da caixa e foi ao w.c. Cansada, sabia que aquela hora só conseguia concentrar-se em pormenores. Reparou no lavatório, em inox, num modelo avantgard oposto ao estilo e clientes do café: só mamutes! Gostou das despropositadas decorações de Natal e ainda concluiu que se houvesse ali um sofá era capaz de fumar um cigarro!

Mas o desencanto completo do dia estava ali a dois segundos quando o olhar rodou com as mãos molhadas, procurando as toalhas e encontrou o secador das mãos.

Detestava secadores de mãos, o barulho absurdo, o calor exagerado e aquela posição de mãos que parece que esperam as algemas. O desespero subiu tão alto que concentrou todos desencantos das últimas horas.

Saiu, pensando no poder dos pormenores. Suspirou: a leoa da savana agora queria mesmo ser só de peluche e encontrar uma almofada.

Sunday, December 03, 2006

One note samba

This is just a little samba,
Built upon a single note
Other notes are bound to follow,
But the root is still that note
Now this new one is the consequence,
Of the one we've just been through
As i'm bound to be the unavoidable consequence of you
There's so many people who can talk
And talk and talk and just say nothing,
Or nearly nothing
I have used up all the scale i know, and at the end i've come to nothing,
Or nearly nothing
So i come back to my first note,
As i must come back to you
I will pour into that one note,
All the love i feel for you
Anyone who wants the whole show,
Re mi fa sol la si do
He will find himself
with no show,
Better play the note you know
Tom Jobim

Friday, December 01, 2006

Hoje deixo-vos a Etta James!
Todos se lembram da I just wanna make love with you, de 1995, escolhida para o spot publicitário da Coca Cola.

Esta senhora, poderosa, dos R&B, nasceu, e ainda bem, em 1938 e ainda continua a cantar. Este ano foi editado All the Way.

Aqui fica um video com a voz dela e fotos de Man Rain...A musica é do seu primeiro album, de 1961, At Last.
comentário 1 : Que pena serem tantas fotos de mulheres nuas, em vez de homens! rs*

comentário 2 : Não se choquem os mais púdicos, a impressão é só estetica!

Aqui fica um beijo da Lua

Wednesday, November 29, 2006
















Há imagens que nos fazem lembrar a magia!
Até lembrei da Fada Oriana, da Sophia, e fui buscar
um excerto.
Ah..se a vida fosse assim tão simples, tão dual!
Possivelmente tambem morreríamos de tédio porque o prazer da simplicidade
deve estar no facto de nos excedermos na complexidade.
Bem...vamos às fadas e aos duendes!

Fadas Boas e Fadas Más
Há duas espécies de fadas: as fadas boas e as fadas más.
As fadas boas fazem coisas boas e as fadas más fazem coisas más.
As fadas boas regam as flores com orvalho, acendem o lume dos velhos, seguram pelo bibe as crianças que vão cair ao rio, encantam os jardins, dançam no ar, inventam sonhos, e à noite põem moedas de oiro dentro dos sapatos dos pobres.As fadas más fazem secar as fontes, apagam a fogueira dos pastores, rasgam a roupa que está ao sol a secar, desencantam os jardins, arreliam as crianças, atormentam os animais e roubam dinheiro aos pobres.Quando uma fada boa vê uma árvore morta, com os ramos secos e sem folhas toca-lhe com a sua varinha de condão e no mesmo instante a árvore cobre-se de folhas, de flores, de frutos e de pássaros a cantar.Quando uma fada má vê uma árvore cheia de folhas, de flores e de pássaros a cantar, toca-lhe com a sua varinha mágica do mau fado e no mesmo instante um vento gelado arranca as folhas, os frutos apodrecem, as flores murcham e os pássaros caem mortos no chão.
Sophia de Mello Anderson

Sunday, November 26, 2006


You Are Welcome To Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny


...para quem o tempo acabou...ficam as palavras escritas numa eternidade esperada

Wednesday, November 22, 2006

















Por mais que procure o silêncio da paz,
Não encontro!
Mergulho constantemente no turbilhão
das emoções,
que nem eu desvendo
e deixo-me ir enganosamente serena,
queimando os pés no gelo dos dias.

Sunday, November 12, 2006

Stultitiae Laus




(…) Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes presumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele de leão. Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas.(…)

in Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Thursday, November 09, 2006

Tuesday, November 07, 2006


















Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…
Florbela Espanca

Sunday, November 05, 2006

ROMANCE DE LA LUNA
a Conchita García Lorca


La luna vino a la fragua
con su polisón de nardos.
El niño la mira mira.
El niño la está mirando.

En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, úbrica y pura,
sus senos de duro estaño.

Huye luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían con tu corazón
collares y anillos blancos.

Niño déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
con los ojillos cerrados.

Huye luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
Niño déjame, no pises,
mi blancor almidonado.

El jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro de la fragua el niño,
tiene los ojos cerrados.

Por el olivar venían,
bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
y los ojos entornados.

¡Cómo canta la zumaya,
ay como canta en el árbol!
Por el cielo va la luna
con el niño de la mano.

Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
el aire la está velando.

Federico García Lorca, 1928

Sunday, October 29, 2006



Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P´la porta da frente
E fica a porta escancarada

Vou-te dizer
A luz começou em frestas
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares
Dirás sempre palavras destas

P´ra te ter
P´ra que de mim não te zangues
Eu vou-te dar
A pele, o meu cetim
Coração carmesim
As carnes e com elas sangues

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo
E o dia tão diário disso tudo

E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino

Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P´ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo
E o dia tão diário disso tudo
Mas se tudo tem fim
Porquê dar a um amor guarida

Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço
Da morte volta sempre em vida

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo
E o dia tão diário disso tudo
Da morte volta sempre em vida
Sérgio Godinho, Ligação directa

Sunday, October 22, 2006

Instantes que recolhi de uma viagem à Noruega


Friday, October 20, 2006

Não sabes que....?

gosto de olhar as crias
e de perder-me de amor por elas
gosto do azul da terra
e de fogo na lareira
gosto de fruta com sumo
e da chuva nas janelas
gosto do cheiro de terra molhada
e da pele morena de verão
gosto do livro aberto
e do amor de fogueira
gosto do cheiro da terra
e de histórias de fadas
gosto da força do mar
e das ondas no paredão
gosto da imensidão do azul
e da lua feiticeira
gosto do riso aberto
e de piscar-te o olho
gosto do vinho no copo
e dos pés em cima da cadeira
gosto de flores na terra
e das estrelas no céu
gosto da flanela no Inverno
e de pé descalço no verão
gosto de morder-te os lábios
e de beber a água na fonte
gosto do riso aberto
e da paz do silêncio
gosto do preto e do branco
e no colo, o meu cão
gosto de tacão alto
e do perfume da alfazema
gosto da tua pele
e das tuas maos longas
gosto de olhar os rostos
e de quem aceita os seus medos
gosto de moinhos de água
e dos ventos de monção
gosto da musica da noite
e das luzes da cidade
gosto do rei de copas
e de heroinas de espadachim
gosto do vinho morno
e da cor da paixão
gosto de café amargo
e dos teus beijos doces
gosto de dormir na areia
e de enrolar-me a ti
ainda não sabes nada de mim?!

Tuesday, October 17, 2006




















A Lua (dizem os ingleses),
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.

E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De... não sei se é desejar.

Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.
Fernando Pessoa

Sunday, October 15, 2006

Pronto, deu-me para isto! A loucura também não precisa de explicação!!!

Saturday, October 14, 2006























Quantas noites frias
a tua ausência me despiu
e gelou
sem poder tocar-te
na pele macia
que me vestiu
desde que nasci.
São, ainda, as tuas mãos
que agarro
quando o chão que piso
é feito de água
Não choro,
não morri
não estremeço
e não me amarro
mas fecho os olhos
e vejo-te
porque hoje voltaste
a estar aqui
minha mãe, meu amor,
minha mágoa.

Saturday, October 07, 2006

Que me perdoe o autor deste vídeo, descoberto por acaso no YT, mas não resisti em trazer para o meu canto estes recortes de uma saudosa NY e ...a musica é deliciosa....

Thursday, October 05, 2006






















Para ti

Para ti que vais comigo agora,
neste pedaço de caminho,
abro minhas mão,
minhas lágrimas e os meus risos
e me atormento no corpo
para descansar no teu carinho

Para ti que vais comigo agora,
neste pedaço de tempo ,
trouxe duas estrelas de onde vim.
Guarda-as junto à tua noite
porque, quando chegar o momento,
uma te pedirei para mim.

Sunday, October 01, 2006


















valsa dos amantes

há um sorriso pequeno
nos labios que amei
faz tempo que te não via
e ao ver-te pensei
estás mudada,
estou mudado
e dos jovens que um dia
se amaram nasceu este fado
há um sorriso pequeno
no homem que eu sou
iniciamos o amor
quando o amor nos chegou
não me esqueço,
não te equeças que
inocentes, escondidos,
escondemos o amor feito às pressas
não penses que te vejo
como outrora,
a vida esgota a vida
hora a hora
o tempo gasta o tempo
e marca a gente
o espelho mostra
como eu estou diferente,
não estou novo
não sou novo
mas não peças que a vida
te apague do fundo de mim
Jorge Fernando

Wednesday, September 27, 2006






















Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade

Monday, September 11, 2006



















Dá-me um toque de mão
e mostra-me a terrra molhada.
Leva-me descalça pelo caminho
até que a noite seja madrugada.
Dá-me o fruto que colheres da árvore
e molha-me com a água da fonte.
Ensina-me a olhar o céu
e a respirar-te no silêncio.
Leva-me a ouvir as ondas
e faz o meus pés chegarem ao mar.
Deixa-me enrolar no teu colo e
conta-me uma história encantada.
Apaga a luz e vem,
vem comigo...
Dá-me coisas simples
porque estou tão cansada!

Friday, September 08, 2006




















HELP ME MAKE IT THROUGH THE NIGHT

Take the ribbons from my hair shake it loose and let it fall
Laying soft against your skin like the shadows on the wall
Come and lay down by my side till the early morning light
All I'm taking is your time help me make it through the night

I don't care who's right or wrong and I won't try to understand
Let the devil take tomorrow Lord tonight I need a friend
Yesterday is dead and gone and tomorrow's out of sight
And it's sad to be alone help me make it through the night
(Kris Kristofferson)

Thursday, September 07, 2006



Como posso afastar os olhos de ti

Lua cheia de magia?

Ah..como essa luz branca, imensa

Inebria!

Tuesday, August 29, 2006






















Do Mundo

Quem anel a anel há-de por-me a nu os dedos
Quando me arrancarão a camisa,
Quando se verá o torso e braço a braço
Todo o peso
Apoiado á luz ?
Alguém me tocará para que eu estanque.
se tivesse escondido entre objectos
exaltados
uma estrela e o seu combustível.
desfaçam devagar o que me liga
primeiro a cada estado do mundo,
depois à memória.
Desfaçam-me do nome, o grande coágulo
de sangue,
umbigo que habilmente se desamarra.
todas as coisas pequenas que em cercam,
para que servem
elas? Desembaracem-me:
o cântaro cheio da força das dedadas,
o copo coriscando,
garfos e o seu fogo, facas e o seu fogo, a carne
profunda na minha carne pela boca
devoradora,
louça e o seu fogo.
Alguém há-de saber de tanto fôlego junto.
Basta a mão direita para quebrar a água
misteriosamente, a mão
para devolver-me à fonte.
Não é preciso que seja raiada, essa pessoa
Leve e potente, só
que finque no meio da dança um pau em brasa
com a floração: quero que me pare, que me abra.
que use a chave da minha obscuridade.
Antes de me terem chamado com água dentro da pedra,
gosto amargo, unhas
e dentes.
A seda com que teci a malha entre pedaços humanos:
membros criando um espaço, respiradouros,
anéis rudes
nas cabeças, uma
beleza viva.
Alguém há-de tocar-me com um dedo,
alguém
há-de pôr-me um selo.
Herberto Helder

Tuesday, August 01, 2006



















Liberté

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordentJ
'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réuniesJ
'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître

Pour te nommerLiberté.

Paul Éluard

Monday, July 31, 2006




















O Amor!!!! (risos)

Tuesday, July 25, 2006

















Gostava de te mostrar um campo de girassóis
Repletos de luz, ondulantes e amarelos.
Até podiam ser os do Van Gogh,
Loucos pelo dia que chega, sem lei.
Mas não o sei fazer!

Assim permaneceremos,
Até que o encantamento se desvaneça
Suavemente…
Continuarás lutando pelo que conheces
E eu sem saber se te amei!

Sunday, July 23, 2006



Post 100º.

Hoje antes de sair para a praia fui procurar um livro que se me seduzisse lê-lo.
Quantos livros temos que comprados pelo autor que os escreveu, pelo título ou pelas palavras que estão escritas na aba do verso da contracapa continuam olhando para nós na estante sem que as nossas mãos os agarrem mais?
Este que hoje agarrei é um desses casos de amor abandonado: Adeus, minha única, de Antoine Audouard, das edições ASA.
Não lembro de ouvir falar deste escritor mas recordo que quando o comprei, há mais de um ano, retive-me na história de amor de Heloísa e de Abelardo, passada no Séc XII, em Paris.
Encantei-me, no meio do vento, do Sol e do barulho e cheiro do mar!
Marquei a página 22 onde lê a frase dita por uma das personagens: Sê feliz e vai, porque nada perdura. Mas lembra-te sempre de quanto te amei.
Quantas vezes na nossa vida ouvimos ou fomos capazes de dizer (porque dizer deve ser sentir) algo semelhante quando se percebe que o caminho bifurca?
Fiquem bem e obrigada pelas vossas visitas por entre os meus 100 posts!

Friday, July 21, 2006















Dá-me a tua mão: vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe
entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo
e que é a linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia
por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo,
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Miguel Torga

Monday, July 17, 2006

















Depois das águas tortuosas,
Em que me movo no teu olhar,
Revoltando-me em cascatas de água
Que mergulham nas pedras do rio,
Caminho então, serenamente,
Pelas paisagens que conheço e
Surpreendo no peito um suspiro de paz
Que me leva em direcção ao mar.

Monday, July 10, 2006

















LA LUNA ASOMA

Cuando sale la luna
se pierden las campanas
y aparecen las sendas
impenetrables.
Cuando sale la luna,
el mar cubre la tierra
y el corazón se siente
isla en el infinito.
Nadie come naranjas
bajo la luna llena.
Es preciso comer
fruta verde y helada.
Cuando sale la luna
de cien rostros iguales,
la moneda de plata
solloza en el bolsillo.
F. Garcia Lorca

Saturday, July 08, 2006



Porque há imagens que não precisam

de qualquer palavra,

Como alguns olhares!

Tuesday, July 04, 2006

















Relógio da Vida

Monday, July 03, 2006













"Il faut vivre d'amour, d'amitié, de défaites.
Donner à perte d'âme, éclater de passion
Pour que l'on puisse écrire à la fin de la fête:
Quelque chose a changé pendant que nous passions.»
Serge Reggiani

Monday, June 26, 2006






















Caminho II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
Bom dia, companheiro...te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Caminho III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar... encher a alma.
Camilo Pessanha

Sunday, June 25, 2006

Sugiro que desliguem o som do blog (em baixo à direita) para ouvirem a magnifica Alicia Keys



Friday, June 23, 2006




















Nesta forma finita, que é o meu corpo,
encontro a tua sombra na minha lucidez.
Mas, quando passo os dedos pela memória das horas,
trago em cada instante um vinho,
uma embriaguês
e descubro a tua sombra na minha pele.
Então, nesta forma finita, que é o meu corpo,
sinto-te mais uma vez.

Sunday, June 11, 2006





















Os Vinte Poemas
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros, ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a amei, e às vezes ela também me amou.
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela me amou, às vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo.
Ao longe alguém canta.
Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la o meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.
A mesma noite que fez branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.J
á não a amo, é verdade, mas quanto a amei.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame.
É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
a minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, June 06, 2006















No seu corpo é que eu encontro
Depois do amor, o descanso
E essa paz infinita
No seu corpo, minhas mãos
Se deslizam e se firmam
Numa curva mais bonita
No seu corpo o meu momento
É mais perfeito
E eu sinto no seu peito
O meu coração bater
E no meio desse abraço
É que eu me amasso
E me entrego pra você
E continua a viagem
No meio dessa paisagem
Onde tudo me fascina
E me deixo ser levado
Por um caminho encantado
Que a natureza me ensina
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos
Me envolvo e sou tragado
Pelos seus carinhos
E só me encontro se me perco
No seu corpo
Roberto Carlos

Não aprecio o género de música do Roberto Carlos, mas gosto deste poema, sobretudo quando cantado pela Maria Bethânia ou pela Simone

Tuesday, May 23, 2006


Para ser grande, sê inteiro: nada
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis

Tuesday, May 16, 2006



Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!

Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos se não fora

A mágica presença das estrelas!

Mario Quintana

Friday, May 12, 2006

















Lua feiticeira

que se deita com o mar,

mergulhando-se em

mágicas correntes

de sal e amor.

O teu brilho, Lua,

é o do Sol, que renasce

em cada onda, nas noites

dos profundos silêncios.

Deixa-te ir, feiticeira,

na ternura da espuma

e na loucura do espanto.

Thursday, May 11, 2006

Sunday, May 07, 2006
















Cobertos pelo céu
abandonam-se os corpos
que só à natureza pertencem
porque entranhados na terra
e brotam sementes.
Abençoados as mulheres
e os homens que as fecundam
em tempestades de calor,
repentindo-se os ciclos da vida
....e nascem marés de
incondicional amor

Saturday, May 06, 2006